quarta-feira, 8 de outubro de 2014

50 anos de 1964: a relação conflituosa entre política e cultura na ditadura militar

    
POR THAÍS VALVANO*    

       “Vocês são iguais sabe a quem? São Iguais sabe a quem? – tem o som no microfone – àqueles que foram no Roda Viva e espancaram os atores”. Essa fala de Caetano Veloso para o público do III festival internacional da canção mostra o conflito eminente entre as produções culturais e a esquerda do período. Essa questão quebra o paradigma que tende a concentrar a atenção para a censura que era praticada pelo regime militar, sem se dar conta da pressão que os artistas sofriam por parte dos jovens dos movimentos de resistência.

        Músicas como Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré, e Sabiá, de Tom Jobim e Chico Buarque, disputavam com É proibido proibir, de Caetano Veloso e Questão de Ordem, de Gilberto Gil. Eram estilos musicais diferentes, enquanto as duas primeiras canções faziam uma denúncia direta a repressão militar, as duas últimas procuravam trazer os movimentos da cultura pop americana para o Brasil. Para uma plateia de jovens de esquerda, as produções de Caetano e Gil eram alienantes, pois tiravam o foco das músicas de protesto. Para grande parte da juventude da época, os artistas e intelectuais teriam, por obrigação, que produzir músicas denunciativas.

            As exaltações chegavam a um nível tão grande que na etapa final do festival, quando a música de Geraldo Vandré recebeu o segundo lugar, o teatro foi tomado por vaias ensurdecedoras que depreciavam a canção Sabiá de Tom Jobim e Chico Buarque de modo a manifestar a inconformidade da posição que a canção Pra não dizer que não falei das flores recebera. E não foi por menos, a partir do festival de 1968, esta música se transformou num hino de resistência ao regime militar.  Isso fez com que o compositor, após o ato institucional nº 5 – AI – 5, fosse umas das pessoas mais caçadas no país, sendo preso e duramente torturado.

             Essa breve explanação de um episódio da nossa cultura mostra como a relação entre cultura e política no período militar era conflituosa. Os festivais da canção serviram como brecha para a divulgação de músicas de resistência, ao mesmo tempo, que serviu de espaço para a circulação de músicas que valorizavam a arte pela arte, como é o caso de Caetano e todo o movimento da tropicália. Atualmente este movimento é tido como resistência por ser opor ao conservadorismo que os militares pregavam. 

              Nesse sentido, o primeiro simpósio da escola Saad tem a feliz iniciativa de abranger todas as esferas do período militar, que além de ter sido um importante momento político do Brasil, foi, também, importante social e culturalmente. Por isso, no dia 15 de outubro, haverá debates e palestras sobre a política do período que vão dialogar com apresentações de dança e música, de forma a preservar alguns aspectos culturais que foram abafados pelos anos de repressão. Mostrando que depois de um violento inverno, sempre vem a primavera.


-Thaís Valvano é historiadora e ex-aluna da Escola Saad-


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