50 anos de 1964: a
relação conflituosa entre política e cultura na ditadura militar
POR THAÍS VALVANO*
“Vocês são iguais sabe
a quem? São Iguais sabe a quem? – tem o som no microfone – àqueles que foram no
Roda Viva e espancaram os atores”. Essa fala de Caetano Veloso para o público do
III festival internacional da canção mostra o conflito eminente entre as
produções culturais e a esquerda do período. Essa questão quebra o paradigma
que tende a concentrar a atenção para a censura que era praticada pelo regime
militar, sem se dar conta da pressão que os artistas sofriam por parte dos
jovens dos movimentos de resistência.
Músicas como Pra não dizer que não falei das flores,
de Geraldo Vandré, e Sabiá, de Tom
Jobim e Chico Buarque, disputavam com É
proibido proibir, de Caetano Veloso e
Questão de Ordem, de Gilberto Gil.
Eram estilos musicais diferentes, enquanto as duas primeiras canções faziam uma
denúncia direta a repressão militar, as duas últimas procuravam trazer os
movimentos da cultura pop americana para o Brasil. Para uma plateia de jovens
de esquerda, as produções de Caetano e Gil eram alienantes, pois tiravam o foco
das músicas de protesto. Para grande parte da juventude da época, os artistas e
intelectuais teriam, por obrigação, que produzir músicas denunciativas.
As exaltações chegavam
a um nível tão grande que na etapa final do festival, quando a música de
Geraldo Vandré recebeu o segundo lugar, o teatro foi tomado por vaias
ensurdecedoras que depreciavam a canção Sabiá
de Tom Jobim e Chico Buarque de modo a manifestar a inconformidade da posição
que a canção Pra não dizer que não falei
das flores recebera. E não foi
por menos, a partir do festival de 1968, esta música se transformou num hino de
resistência ao regime militar. Isso fez
com que o compositor, após o ato institucional nº 5 – AI – 5, fosse umas das
pessoas mais caçadas no país, sendo preso e duramente torturado.
Essa breve explanação
de um episódio da nossa cultura mostra como a relação entre cultura e política
no período militar era conflituosa. Os festivais da canção serviram como brecha
para a divulgação de músicas de resistência, ao mesmo tempo, que serviu de
espaço para a circulação de músicas que valorizavam a arte pela arte, como é o
caso de Caetano e todo o movimento da tropicália. Atualmente este movimento é
tido como resistência por ser opor ao conservadorismo que os militares
pregavam.
Nesse sentido, o
primeiro simpósio da escola Saad tem a feliz iniciativa de abranger todas as
esferas do período militar, que além de ter sido um importante momento político
do Brasil, foi, também, importante social e culturalmente. Por isso, no dia 15
de outubro, haverá debates e palestras sobre a política do período que vão dialogar
com apresentações de dança e música, de forma a preservar alguns aspectos
culturais que foram abafados pelos anos de repressão. Mostrando que depois de
um violento inverno, sempre vem a primavera.
-Thaís Valvano é historiadora e ex-aluna da Escola Saad-
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